O centro do império

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Escritor

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8 de jan. de 2026, 18:00

#Motivação
Opinião

Sem esforço, conhecemos as matizes mais ínfimas da realidade e da cultura norte-americana. Após uma vida inteira de inúmeras séries de televisão, filmes, canções e cantores, comediantes, políticos e outras figuras, sabemos mais sobre o quotidiano dos Estados Unidos do que alguma vez saberemos acerca de países muito mais próximos, com os quais partilhamos muito mais história e geografia. Não estranhamos as referências norte-americanas que encontramos em tudo, absorvemo-las todas, ou quase. 

Se não fosse assim, é provável que nem sequer tivéssemos o segundo romance de Ocean Vuong traduzido e publicado tão poucos meses depois de surgir nas prateleiras das livrarias norte-americanas. Também é verdade que, de outro modo, não conseguiríamos apreciar as subtilezas destas páginas.



Neste romance, essa literacia norte-americana permite-nos saborear as descrições de East Gladness, povoação desolada do Connecticut, onde ficam expostos os restos desbotados, oxidados, decadências diversas, ruínas de uma sociedade baseada no consumo. É igualmente através desse entendimento que apreendemos a especificidade das personagens principais, Hai e Grazina, também sobras dessa mesma sociedade. Hai é um jovem que, nas primeiras páginas do romance, está numa situação-limite, quase sem nada, sem vontade de viver; Grazina é uma viúva idosa, imigrante lituana, anticomunista, com muitas décadas de “sonho americano”.

Além das diferenças evidentes, a relação entre os dois é inesperada também pela excentricidade que apresentam, a demência de Grazina, o desequilíbrio de Hai, assim como por uma explícita poeticidade do quotidiano, do real, uma espécie de lirismo pós-lírico, que se manifesta nas ações e nas mundividências de cada um, ternas, humanas, moldadas pela precaridade, pelo trauma, pela marginalização.

O título original deste romance é The Emperor of Gladness. Apesar de tudo o que partilhamos por inevitável influência, as línguas ainda traçam fronteiras, como esta diferença entre “Alegria” e “Gladness”. Isto sem pôr em causa o trabalho de tradução, que soa muito competente, salvaguardando que não li o texto original. 

“Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia” é uma ideia atribuída a Tolstoi. Com virtuosismo, Ocean Vuong pinta aqui uma aldeia, tanto do ponto de vista local, como do humano. Comparável ao que acontece com as marcas de todos os produtos que consomem, com os grafitis nas paredes, com frequentes palavras grafadas em itálico, essa aldeia é muito parecida com a nossa. 


O Imperador da Alegria, Ocean Vuong, Relógio d’Água, 2025


José Luís Peixoto assina a rubrica Os Livros Pensam, quinzenalmente, no MOTIVO.

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8 de jan. de 2026, 18:00

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Sem esforço, conhecemos as matizes mais ínfimas da realidade e da cultura norte-americana. Após uma vida inteira de inúmeras séries de televisão, filmes, canções e cantores, comediantes, políticos e outras figuras, sabemos mais sobre o quotidiano dos Estados Unidos do que alguma vez saberemos acerca de países muito mais próximos, com os quais partilhamos muito mais história e geografia. Não estranhamos as referências norte-americanas que encontramos em tudo, absorvemo-las todas, ou quase. 

Se não fosse assim, é provável que nem sequer tivéssemos o segundo romance de Ocean Vuong traduzido e publicado tão poucos meses depois de surgir nas prateleiras das livrarias norte-americanas. Também é verdade que, de outro modo, não conseguiríamos apreciar as subtilezas destas páginas.



Neste romance, essa literacia norte-americana permite-nos saborear as descrições de East Gladness, povoação desolada do Connecticut, onde ficam expostos os restos desbotados, oxidados, decadências diversas, ruínas de uma sociedade baseada no consumo. É igualmente através desse entendimento que apreendemos a especificidade das personagens principais, Hai e Grazina, também sobras dessa mesma sociedade. Hai é um jovem que, nas primeiras páginas do romance, está numa situação-limite, quase sem nada, sem vontade de viver; Grazina é uma viúva idosa, imigrante lituana, anticomunista, com muitas décadas de “sonho americano”.

Além das diferenças evidentes, a relação entre os dois é inesperada também pela excentricidade que apresentam, a demência de Grazina, o desequilíbrio de Hai, assim como por uma explícita poeticidade do quotidiano, do real, uma espécie de lirismo pós-lírico, que se manifesta nas ações e nas mundividências de cada um, ternas, humanas, moldadas pela precaridade, pelo trauma, pela marginalização.

O título original deste romance é The Emperor of Gladness. Apesar de tudo o que partilhamos por inevitável influência, as línguas ainda traçam fronteiras, como esta diferença entre “Alegria” e “Gladness”. Isto sem pôr em causa o trabalho de tradução, que soa muito competente, salvaguardando que não li o texto original. 

“Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia” é uma ideia atribuída a Tolstoi. Com virtuosismo, Ocean Vuong pinta aqui uma aldeia, tanto do ponto de vista local, como do humano. Comparável ao que acontece com as marcas de todos os produtos que consomem, com os grafitis nas paredes, com frequentes palavras grafadas em itálico, essa aldeia é muito parecida com a nossa. 


O Imperador da Alegria, Ocean Vuong, Relógio d’Água, 2025


José Luís Peixoto assina a rubrica Os Livros Pensam, quinzenalmente, no MOTIVO.

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Se não fosse assim, é provável que nem sequer tivéssemos o segundo romance de Ocean Vuong traduzido e publicado tão poucos meses depois de surgir nas prateleiras das livrarias norte-americanas. Também é verdade que, de outro modo, não conseguiríamos apreciar as subtilezas destas páginas.



Neste romance, essa literacia norte-americana permite-nos saborear as descrições de East Gladness, povoação desolada do Connecticut, onde ficam expostos os restos desbotados, oxidados, decadências diversas, ruínas de uma sociedade baseada no consumo. É igualmente através desse entendimento que apreendemos a especificidade das personagens principais, Hai e Grazina, também sobras dessa mesma sociedade. Hai é um jovem que, nas primeiras páginas do romance, está numa situação-limite, quase sem nada, sem vontade de viver; Grazina é uma viúva idosa, imigrante lituana, anticomunista, com muitas décadas de “sonho americano”.

Além das diferenças evidentes, a relação entre os dois é inesperada também pela excentricidade que apresentam, a demência de Grazina, o desequilíbrio de Hai, assim como por uma explícita poeticidade do quotidiano, do real, uma espécie de lirismo pós-lírico, que se manifesta nas ações e nas mundividências de cada um, ternas, humanas, moldadas pela precaridade, pelo trauma, pela marginalização.

O título original deste romance é The Emperor of Gladness. Apesar de tudo o que partilhamos por inevitável influência, as línguas ainda traçam fronteiras, como esta diferença entre “Alegria” e “Gladness”. Isto sem pôr em causa o trabalho de tradução, que soa muito competente, salvaguardando que não li o texto original. 

“Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia” é uma ideia atribuída a Tolstoi. Com virtuosismo, Ocean Vuong pinta aqui uma aldeia, tanto do ponto de vista local, como do humano. Comparável ao que acontece com as marcas de todos os produtos que consomem, com os grafitis nas paredes, com frequentes palavras grafadas em itálico, essa aldeia é muito parecida com a nossa. 


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Se não fosse assim, é provável que nem sequer tivéssemos o segundo romance de Ocean Vuong traduzido e publicado tão poucos meses depois de surgir nas prateleiras das livrarias norte-americanas. Também é verdade que, de outro modo, não conseguiríamos apreciar as subtilezas destas páginas.



Neste romance, essa literacia norte-americana permite-nos saborear as descrições de East Gladness, povoação desolada do Connecticut, onde ficam expostos os restos desbotados, oxidados, decadências diversas, ruínas de uma sociedade baseada no consumo. É igualmente através desse entendimento que apreendemos a especificidade das personagens principais, Hai e Grazina, também sobras dessa mesma sociedade. Hai é um jovem que, nas primeiras páginas do romance, está numa situação-limite, quase sem nada, sem vontade de viver; Grazina é uma viúva idosa, imigrante lituana, anticomunista, com muitas décadas de “sonho americano”.

Além das diferenças evidentes, a relação entre os dois é inesperada também pela excentricidade que apresentam, a demência de Grazina, o desequilíbrio de Hai, assim como por uma explícita poeticidade do quotidiano, do real, uma espécie de lirismo pós-lírico, que se manifesta nas ações e nas mundividências de cada um, ternas, humanas, moldadas pela precaridade, pelo trauma, pela marginalização.

O título original deste romance é The Emperor of Gladness. Apesar de tudo o que partilhamos por inevitável influência, as línguas ainda traçam fronteiras, como esta diferença entre “Alegria” e “Gladness”. Isto sem pôr em causa o trabalho de tradução, que soa muito competente, salvaguardando que não li o texto original. 

“Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia” é uma ideia atribuída a Tolstoi. Com virtuosismo, Ocean Vuong pinta aqui uma aldeia, tanto do ponto de vista local, como do humano. Comparável ao que acontece com as marcas de todos os produtos que consomem, com os grafitis nas paredes, com frequentes palavras grafadas em itálico, essa aldeia é muito parecida com a nossa. 


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