Imagine-se

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Escritor

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17 de dez. de 2025, 08:00

#Motivação
Opinião

Há uma forma específica de ignorância que dispensa o conhecimento que advém da arte e das chamadas ciências humanas, considera-o pouco sério, ignora-o ou, se tem mesmo de referir-se a ele, menospreza-o. Segundo esse tipo de ignorância, conhecimento de facto é o que advém do “mundo real”, o que resolve problemas do quotidiano, o que é noticiado nos jornais; conhecimento de facto é a economia e a política, desde que debatidas pelos códigos dos comentadores de televisão, ou segundo argumentos do Twitter (sei que tem um nome novo, mas acho-o ridículo). As ciências ditas exatas podem ou não ser chamadas para essa ignorância, dependendo da literacia científica do sujeito. Sempre presente é a soberba, característica tão comum nas ignorâncias mais severas.

Imaginação, de Francisco Louçã, não sofre dessa inépcia. As cerca de 500 páginas que constituem este ensaio são um questionamento sincero acerca da natureza do ser humano. A principal característica desta investigação é o seu ecletismo, a sua liberdade, o modo como relaciona conhecimento vindo de diferentes origens. 



A hipótese proposta é: será a imaginação que distingue o ser humano de todas as outras espécies? Para testá-la, somos levados a observar a imaginação a partir de quatro perspetivas: a cor, as sondagens da arte; os deuses, o sonho do divino; a viagem, os mundos imaginados depois do horizonte; os amores, a idealização romântica e erótica. Estes raciocínios são feitos das mais diversas disciplinas, a história cruza-se com a filosofia, todas as artes se cruzam entre si. Rodeado de centenas de referências, o caso de Gauguin é um eixo que se mantém ao longo de todas estas partes, nem sempre descrito com palavras laudatórias. Num livro maioritariamente habitado por referências da cultura ocidental, uma parte importante da história de Gauguin expõe o contraste desse mundo com outro, o Pacífico Sul do fim do século XIX. Além da eloquência das escolhas de Gauguin, da sua biografia e das suas experiências artísticas, são também apresentados múltiplos apontamentos em que esse “exílio da civilização” é eloquente acerca da suposta “civilização” a que se refere.

Ao longo destas páginas, acompanhamos a indagação pessoal do autor. Implicitamente, esta demanda pressupõe curiosidade e respeito pelo outro. Não usa os inúmeros exemplos mencionados para justificar o que já sabe à partida. Em vez disso, segue pistas com espanto explícito, aponta a lanterna em todas as direções, tenta iluminar a grande gruta. Ao lermos, seguimos toda essa informação alegórica, reconhecemos algumas histórias, tomamos conhecimento de muitas outras pela primeira vez. No fim, sob o peso do que lemos, percebemos que vislumbrámos uma amostra de todo o conhecimento produzido pela humanidade, a imensa e inesgotável imaginação. 


Imaginação, Francisco Louçã, Bertrand Editora, 2025


José Luís Peixoto assina a rubrica Os Livros Pensam, quinzenalmente, no MOTIVO.

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17 de dez. de 2025, 08:00

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Há uma forma específica de ignorância que dispensa o conhecimento que advém da arte e das chamadas ciências humanas, considera-o pouco sério, ignora-o ou, se tem mesmo de referir-se a ele, menospreza-o. Segundo esse tipo de ignorância, conhecimento de facto é o que advém do “mundo real”, o que resolve problemas do quotidiano, o que é noticiado nos jornais; conhecimento de facto é a economia e a política, desde que debatidas pelos códigos dos comentadores de televisão, ou segundo argumentos do Twitter (sei que tem um nome novo, mas acho-o ridículo). As ciências ditas exatas podem ou não ser chamadas para essa ignorância, dependendo da literacia científica do sujeito. Sempre presente é a soberba, característica tão comum nas ignorâncias mais severas.

Imaginação, de Francisco Louçã, não sofre dessa inépcia. As cerca de 500 páginas que constituem este ensaio são um questionamento sincero acerca da natureza do ser humano. A principal característica desta investigação é o seu ecletismo, a sua liberdade, o modo como relaciona conhecimento vindo de diferentes origens. 



A hipótese proposta é: será a imaginação que distingue o ser humano de todas as outras espécies? Para testá-la, somos levados a observar a imaginação a partir de quatro perspetivas: a cor, as sondagens da arte; os deuses, o sonho do divino; a viagem, os mundos imaginados depois do horizonte; os amores, a idealização romântica e erótica. Estes raciocínios são feitos das mais diversas disciplinas, a história cruza-se com a filosofia, todas as artes se cruzam entre si. Rodeado de centenas de referências, o caso de Gauguin é um eixo que se mantém ao longo de todas estas partes, nem sempre descrito com palavras laudatórias. Num livro maioritariamente habitado por referências da cultura ocidental, uma parte importante da história de Gauguin expõe o contraste desse mundo com outro, o Pacífico Sul do fim do século XIX. Além da eloquência das escolhas de Gauguin, da sua biografia e das suas experiências artísticas, são também apresentados múltiplos apontamentos em que esse “exílio da civilização” é eloquente acerca da suposta “civilização” a que se refere.

Ao longo destas páginas, acompanhamos a indagação pessoal do autor. Implicitamente, esta demanda pressupõe curiosidade e respeito pelo outro. Não usa os inúmeros exemplos mencionados para justificar o que já sabe à partida. Em vez disso, segue pistas com espanto explícito, aponta a lanterna em todas as direções, tenta iluminar a grande gruta. Ao lermos, seguimos toda essa informação alegórica, reconhecemos algumas histórias, tomamos conhecimento de muitas outras pela primeira vez. No fim, sob o peso do que lemos, percebemos que vislumbrámos uma amostra de todo o conhecimento produzido pela humanidade, a imensa e inesgotável imaginação. 


Imaginação, Francisco Louçã, Bertrand Editora, 2025


José Luís Peixoto assina a rubrica Os Livros Pensam, quinzenalmente, no MOTIVO.

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17 de dez. de 2025, 08:00

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Há uma forma específica de ignorância que dispensa o conhecimento que advém da arte e das chamadas ciências humanas, considera-o pouco sério, ignora-o ou, se tem mesmo de referir-se a ele, menospreza-o. Segundo esse tipo de ignorância, conhecimento de facto é o que advém do “mundo real”, o que resolve problemas do quotidiano, o que é noticiado nos jornais; conhecimento de facto é a economia e a política, desde que debatidas pelos códigos dos comentadores de televisão, ou segundo argumentos do Twitter (sei que tem um nome novo, mas acho-o ridículo). As ciências ditas exatas podem ou não ser chamadas para essa ignorância, dependendo da literacia científica do sujeito. Sempre presente é a soberba, característica tão comum nas ignorâncias mais severas.

Imaginação, de Francisco Louçã, não sofre dessa inépcia. As cerca de 500 páginas que constituem este ensaio são um questionamento sincero acerca da natureza do ser humano. A principal característica desta investigação é o seu ecletismo, a sua liberdade, o modo como relaciona conhecimento vindo de diferentes origens. 



A hipótese proposta é: será a imaginação que distingue o ser humano de todas as outras espécies? Para testá-la, somos levados a observar a imaginação a partir de quatro perspetivas: a cor, as sondagens da arte; os deuses, o sonho do divino; a viagem, os mundos imaginados depois do horizonte; os amores, a idealização romântica e erótica. Estes raciocínios são feitos das mais diversas disciplinas, a história cruza-se com a filosofia, todas as artes se cruzam entre si. Rodeado de centenas de referências, o caso de Gauguin é um eixo que se mantém ao longo de todas estas partes, nem sempre descrito com palavras laudatórias. Num livro maioritariamente habitado por referências da cultura ocidental, uma parte importante da história de Gauguin expõe o contraste desse mundo com outro, o Pacífico Sul do fim do século XIX. Além da eloquência das escolhas de Gauguin, da sua biografia e das suas experiências artísticas, são também apresentados múltiplos apontamentos em que esse “exílio da civilização” é eloquente acerca da suposta “civilização” a que se refere.

Ao longo destas páginas, acompanhamos a indagação pessoal do autor. Implicitamente, esta demanda pressupõe curiosidade e respeito pelo outro. Não usa os inúmeros exemplos mencionados para justificar o que já sabe à partida. Em vez disso, segue pistas com espanto explícito, aponta a lanterna em todas as direções, tenta iluminar a grande gruta. Ao lermos, seguimos toda essa informação alegórica, reconhecemos algumas histórias, tomamos conhecimento de muitas outras pela primeira vez. No fim, sob o peso do que lemos, percebemos que vislumbrámos uma amostra de todo o conhecimento produzido pela humanidade, a imensa e inesgotável imaginação. 


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Imaginação, de Francisco Louçã, não sofre dessa inépcia. As cerca de 500 páginas que constituem este ensaio são um questionamento sincero acerca da natureza do ser humano. A principal característica desta investigação é o seu ecletismo, a sua liberdade, o modo como relaciona conhecimento vindo de diferentes origens. 



A hipótese proposta é: será a imaginação que distingue o ser humano de todas as outras espécies? Para testá-la, somos levados a observar a imaginação a partir de quatro perspetivas: a cor, as sondagens da arte; os deuses, o sonho do divino; a viagem, os mundos imaginados depois do horizonte; os amores, a idealização romântica e erótica. Estes raciocínios são feitos das mais diversas disciplinas, a história cruza-se com a filosofia, todas as artes se cruzam entre si. Rodeado de centenas de referências, o caso de Gauguin é um eixo que se mantém ao longo de todas estas partes, nem sempre descrito com palavras laudatórias. Num livro maioritariamente habitado por referências da cultura ocidental, uma parte importante da história de Gauguin expõe o contraste desse mundo com outro, o Pacífico Sul do fim do século XIX. Além da eloquência das escolhas de Gauguin, da sua biografia e das suas experiências artísticas, são também apresentados múltiplos apontamentos em que esse “exílio da civilização” é eloquente acerca da suposta “civilização” a que se refere.

Ao longo destas páginas, acompanhamos a indagação pessoal do autor. Implicitamente, esta demanda pressupõe curiosidade e respeito pelo outro. Não usa os inúmeros exemplos mencionados para justificar o que já sabe à partida. Em vez disso, segue pistas com espanto explícito, aponta a lanterna em todas as direções, tenta iluminar a grande gruta. Ao lermos, seguimos toda essa informação alegórica, reconhecemos algumas histórias, tomamos conhecimento de muitas outras pela primeira vez. No fim, sob o peso do que lemos, percebemos que vislumbrámos uma amostra de todo o conhecimento produzido pela humanidade, a imensa e inesgotável imaginação. 


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