
#Protagonistas
AGÊNCIA DO MÊS: ZOV
Na edição de janeiro da série Agência do Mês, entrámos na ZOV para conhecer o espaço, a equipa e a visão de quem fez da voz um projeto com propósito. A agência liderada por Marta Correia dá corpo a um negócio quase invisível, mas absolutamente essencial.
A série de reportagens Agência do Mês parte do imaginário norte-americano do Employee of The Month para destacar o trabalho de uma agência portuguesa. Não é um ranking. Não é um prémio. É um mergulho mais demorado nas estruturas que se revelam essenciais a tantos negócios e que, quase sempre, permanecem na sombra. É o reconhecimento do MOTIVO ao trabalho que desenvolvem. E é mais uma oportunidade de dar a conhecer empresas que merecem.
O portão grande do edifício cor-de-rosa na Cruz Quebrada esconde um pequeno pátio interior. É preciso ultrapassá-lo para perceber o que acontece do lado de dentro. Quando entro, todas as colaboradoras da ZOV estão ali, a aproveitar o sol da pausa de almoço. Falam, riem, partilham histórias do dia. Não parece uma agência no sentido clássico da palavra. Parece antes um espaço onde as pessoas se sentem suficientemente à vontade para parar juntas, respirar e continuar.
Lá dentro, o ambiente confirma essa primeira impressão. Um open space com várias secretárias, uma copa funcional e, ao centro, uma mesa comprida onde todos os dias a equipa se senta para almoçar em conjunto. A circulação é tranquila, sem pressa excessiva, mas com uma sensação clara de foco. Subimos ao primeiro andar. Três estúdios alinham-se ao longo do corredor iluminado por claraboias. É ali onde se gravam muitas das vozes que fazem parte do quotidiano de milhões de pessoas, mesmo que a maioria nunca saiba quem está por detrás delas.
Ao fundo do corredor, o escritório de Marta Correia, 52 anos de idade, fundadora e diretora da ZOV. É ali que esta história começa, mas também onde continua a ser pensada todos os dias.

Marta Correia, fundadora da ZOV
Uma agência que nasceu de uma ausência
A ZOV é hoje uma referência incontornável no mercado da voz em Portugal. Com quase 20 anos de experiência, trabalha em projetos nacionais e internacionais, representa cerca de 90% das vozes profissionais do mercado e soma mais de mil clientes. Dá voz à locução publicitária, a equipamentos de GPS, call centers, eventos, speakers, vídeos corporativos, cursos de e-learning e muito mais. Está em todo o lado e, ao mesmo tempo, é quase invisível.
Quando Marta Correia fala da origem da ZOV, fala sobretudo de uma ausência. Durante anos trabalhou em agências de publicidade e, mais tarde, em estúdios de som, sempre ligada à produção e ao áudio. Foi nesse percurso que percebeu que o mercado português não tinha uma estrutura dedicada exclusivamente à gestão profissional da voz. “Em todos os países já existiam agências de voz, mas em Portugal, não havia nenhuma. Percebi que havia ali uma lacuna clara e pensei que estava na altura de me aventurar”, explica.
A decisão não foi simples. Marta deixou uma empresa onde trabalhava há uma década para criar algo que não existia. “Foi começar do zero. Não havia modelo, não havia referências cá. Mandei centenas de e-mails para agências de voz lá fora. Só uma respondeu, uma agência australiana. Esse e-mail foi o meu mote”.
Com base nessa partilha de experiências, que dura até aos dias de hoje, e numa forte rede de contactos no mercado português, a ZOV começou a ganhar forma em 2007. O maior desafio inicial foi explicar o modelo de negócio. “O mercado estava muito formatado. Eram os estúdios que escolhiam a voz, e escolhiam sempre as mesmas pessoas. Foi preciso mostrar que nós não vínhamos substituir ninguém, mas acrescentar valor. Porque também viemos facilitar o trabalho dos estúdios, que não tinham tempo nem recursos para procurar novas vozes”.

A equipa da ZOV, fotografada recentemente nas instalações da agência
Foco absoluto na voz e nas pessoas
Desde o início, a ZOV definiu um posicionamento muito claro. Focar-se apenas na voz e tratá-la como um instrumento profissional com valor próprio. Hoje representa cerca de 500 atores e locutores, exclusivos e não exclusivos, gerindo expectativas, carreiras e oportunidades com um cuidado que Marta descreve como essencial. “A ética nunca esteve em causa. O valor de uma voz é inegociável. Estamos a falar de pessoas que vivem da sua voz, que a estudaram, que a trabalharam. Isso traz-nos uma enorme responsabilidade”.
Esse princípio refletiu-se também na forma como a ZOV cresceu num mercado onde surgiram outros players. Marta é clara ao afirmar que nunca quis crescer à custa de práticas que desvalorizassem o trabalho dos profissionais. “Preferimos dizer que não, a entrar num jogo que não respeita o valor do trabalho. A coerência vale mais do que um crescimento rápido”.
As pessoas primeiro
A cultura interna da ZOV resume-se numa expressão simples, mas levada à letra. People first, ou ‘as pessoas primeiro’, em português.“Eu quero que as pessoas se sintam bem aqui. Que gostem de vir trabalhar. Que se sintam recompensadas, com autonomia, com espaço para errar e para crescer”, afirma a diretora.
A equipa é maioritariamente feminina e relativamente jovem, algo que aconteceu de forma orgânica. “Nunca foi uma opção não contratar homens. Aconteceu assim. Os currículos que chegam são maioritariamente de mulheres. O que procuro é formação, valores e empatia. O resto aprende-se”.
O dia a dia é dinâmico e nunca igual. Cada pedido é um projeto novo, cada cliente traz uma necessidade diferente. Há um departamento de produção que faz a ponte entre clientes e talentos, uma área administrativa e financeira, a componente técnica e uma gestão muito próxima por parte da fundadora. “Almoçamos sempre juntas. À volta da mesa surgem muitas ideias. É ali que se pensa o futuro”.

Marta Correia defende: “O sucesso de uma empresa depende da energia de quem lá trabalha"
Um espaço que reflete uma forma de estar
O espaço físico da ZOV diz muito sobre a empresa. A mesa de almoços partilhados, o pátio onde todas param juntas. Tudo aponta para uma lógica de proximidade e partilha. Marta acredita que isso é fundamental, sobretudo num trabalho criativo. “Não gosto de estar nem de trabalhar sozinha. A criatividade nasce da troca, de ouvir o outro, de perceber como a pessoa está naquele dia”.
Essa atenção às pessoas estende-se também à forma como a ZOV encara o equilíbrio entre vida pessoal e profissional. “O sucesso de uma empresa depende da energia de quem lá trabalha. Se a pessoa não está em equilíbrio, isso nota-se. Nota-se na voz, na postura, na forma como atende um cliente”.
O futuro da voz num mundo em mudança
A inteligência artificial é hoje uma das grandes questões do setor. Marta fala do tema com realismo e sem alarmismo. “Não vale a pena ir contra. É uma onda. Temos de perceber como a podemos apanhar”.
A preocupação principal é proteger as vozes que representam e encontrar modelos éticos e sustentáveis para o futuro. Marta acredita que a IA terá espaço em projetos mais simples, como call centers ou audiolivros, mas que a publicidade continuará a exigir presença humana durante bastante tempo. “O nosso papel é continuar a ser um parceiro. Para os clientes e para os agenciados. Ajudar a encontrar soluções, acompanhar a tecnologia e acrescentar valor”.
No último ano, a ZOV deu um passo estratégico fora do território tradicional da voz com a criação da On It, uma agência de digital marketing que nasce de dentro da própria estrutura. O projeto surge da necessidade de diversificar serviços e de preparar a empresa para um contexto cada vez mais tecnológico, marcado pela aceleração da inteligência artificial e pelas novas formas de comunicação digital. Constituída por uma equipa muito jovem, maioritariamente da geração Z, a On It traz uma nova energia à casa e um olhar mais imediato sobre tendências, plataformas e linguagens digitais. “Precisávamos desse sangue novo, de pessoas com uma cabeça diferente da nossa, mais à frente em alguns temas”, explica Marta Correia. A nova agência trabalha em sinergia com a ZOV, potenciando marcas já clientes e apoiando também atores e locutores que precisam de presença digital estratégica. Mais do que um negócio autónomo, a On It funciona como um laboratório de futuro, onde a experiência de mais de duas décadas se cruza com uma nova geração habituada a pensar fora da caixa.

O desafio de arriscar
Para Marta Correia, empreender foi uma decisão prática, arriscada e consciente, tomada num momento em que não existiam garantias nem modelos a seguir. “Foi uma aventura. Larguei uma empresa onde estava há dez anos para criar algo que não existia. Não fazia ideia de como ia correr”, recorda. A segurança veio, em parte, do apoio familiar, que lhe permitiu arriscar numa fase em que tinha duas filhas pequenas. “Sabia que, se corresse mal, tinha uma rede de apoio. Isso dá-nos coragem para avançar”. Ao longo do tempo, esse risco transformou-se numa construção sólida, feita de persistência, aprendizagem e de uma grande capacidade de adaptação a um mercado em constante mudança.
Hoje, enquanto fundadora e diretora, Marta reconhece que liderar um projeto próprio é também um exercício de solidão e responsabilidade. “Liderar é, muitas vezes, solitário. Temos de parar, refletir e decidir caminhos. Há muita pressão e uma expectativa constante de que não podemos fraquejar”. Ainda assim, não acredita numa liderança distante e infalível. “Não acredito em líderes que nunca têm medo. Acho importante dizermos quando temos receio e partilharmos isso com a equipa”.
Para quem quer empreender, deixa um conselho simples e exigente ao mesmo tempo: “É fazer as coisas com paixão e com propósito. Acreditar genuinamente no projeto, valorizar as pessoas e manter a ética. O crescimento pode ser mais lento, mas construído numa base de confiança e credibilidade”.
Uma agência que não quer ser só uma agência
Antes de sair, volto a atravessar o open space. Há uma sensação de equilíbrio entre exigência e bem-estar. A ZOV não é apenas uma agência de voz. É um espaço onde a voz é tratada como identidade, trabalho e relação. Marta Correia resume essa filosofia de forma simples. “Quem cria um projeto tem de o fazer com paixão e propósito. Valorizar pessoas, ser ético, acreditar. O resto constrói-se”. Na Cruz Quebrada, num edifício cor-de-rosa que guarda vozes conhecidas de todos nós, percebe-se que essa construção acontece todos os dias, uma gravação de cada vez.

#Protagonistas
AGÊNCIA DO MÊS: ZOV
Na edição de janeiro da série Agência do Mês, entrámos na ZOV para conhecer o espaço, a equipa e a visão de quem fez da voz um projeto com propósito. A agência liderada por Marta Correia dá corpo a um negócio quase invisível, mas absolutamente essencial.
A série de reportagens Agência do Mês parte do imaginário norte-americano do Employee of The Month para destacar o trabalho de uma agência portuguesa. Não é um ranking. Não é um prémio. É um mergulho mais demorado nas estruturas que se revelam essenciais a tantos negócios e que, quase sempre, permanecem na sombra. É o reconhecimento do MOTIVO ao trabalho que desenvolvem. E é mais uma oportunidade de dar a conhecer empresas que merecem.
O portão grande do edifício cor-de-rosa na Cruz Quebrada esconde um pequeno pátio interior. É preciso ultrapassá-lo para perceber o que acontece do lado de dentro. Quando entro, todas as colaboradoras da ZOV estão ali, a aproveitar o sol da pausa de almoço. Falam, riem, partilham histórias do dia. Não parece uma agência no sentido clássico da palavra. Parece antes um espaço onde as pessoas se sentem suficientemente à vontade para parar juntas, respirar e continuar.
Lá dentro, o ambiente confirma essa primeira impressão. Um open space com várias secretárias, uma copa funcional e, ao centro, uma mesa comprida onde todos os dias a equipa se senta para almoçar em conjunto. A circulação é tranquila, sem pressa excessiva, mas com uma sensação clara de foco. Subimos ao primeiro andar. Três estúdios alinham-se ao longo do corredor iluminado por claraboias. É ali onde se gravam muitas das vozes que fazem parte do quotidiano de milhões de pessoas, mesmo que a maioria nunca saiba quem está por detrás delas.
Ao fundo do corredor, o escritório de Marta Correia, 52 anos de idade, fundadora e diretora da ZOV. É ali que esta história começa, mas também onde continua a ser pensada todos os dias.

Marta Correia, fundadora da ZOV
Uma agência que nasceu de uma ausência
A ZOV é hoje uma referência incontornável no mercado da voz em Portugal. Com quase 20 anos de experiência, trabalha em projetos nacionais e internacionais, representa cerca de 90% das vozes profissionais do mercado e soma mais de mil clientes. Dá voz à locução publicitária, a equipamentos de GPS, call centers, eventos, speakers, vídeos corporativos, cursos de e-learning e muito mais. Está em todo o lado e, ao mesmo tempo, é quase invisível.
Quando Marta Correia fala da origem da ZOV, fala sobretudo de uma ausência. Durante anos trabalhou em agências de publicidade e, mais tarde, em estúdios de som, sempre ligada à produção e ao áudio. Foi nesse percurso que percebeu que o mercado português não tinha uma estrutura dedicada exclusivamente à gestão profissional da voz. “Em todos os países já existiam agências de voz, mas em Portugal, não havia nenhuma. Percebi que havia ali uma lacuna clara e pensei que estava na altura de me aventurar”, explica.
A decisão não foi simples. Marta deixou uma empresa onde trabalhava há uma década para criar algo que não existia. “Foi começar do zero. Não havia modelo, não havia referências cá. Mandei centenas de e-mails para agências de voz lá fora. Só uma respondeu, uma agência australiana. Esse e-mail foi o meu mote”.
Com base nessa partilha de experiências, que dura até aos dias de hoje, e numa forte rede de contactos no mercado português, a ZOV começou a ganhar forma em 2007. O maior desafio inicial foi explicar o modelo de negócio. “O mercado estava muito formatado. Eram os estúdios que escolhiam a voz, e escolhiam sempre as mesmas pessoas. Foi preciso mostrar que nós não vínhamos substituir ninguém, mas acrescentar valor. Porque também viemos facilitar o trabalho dos estúdios, que não tinham tempo nem recursos para procurar novas vozes”.

A equipa da ZOV, fotografada recentemente nas instalações da agência
Foco absoluto na voz e nas pessoas
Desde o início, a ZOV definiu um posicionamento muito claro. Focar-se apenas na voz e tratá-la como um instrumento profissional com valor próprio. Hoje representa cerca de 500 atores e locutores, exclusivos e não exclusivos, gerindo expectativas, carreiras e oportunidades com um cuidado que Marta descreve como essencial. “A ética nunca esteve em causa. O valor de uma voz é inegociável. Estamos a falar de pessoas que vivem da sua voz, que a estudaram, que a trabalharam. Isso traz-nos uma enorme responsabilidade”.
Esse princípio refletiu-se também na forma como a ZOV cresceu num mercado onde surgiram outros players. Marta é clara ao afirmar que nunca quis crescer à custa de práticas que desvalorizassem o trabalho dos profissionais. “Preferimos dizer que não, a entrar num jogo que não respeita o valor do trabalho. A coerência vale mais do que um crescimento rápido”.
As pessoas primeiro
A cultura interna da ZOV resume-se numa expressão simples, mas levada à letra. People first, ou ‘as pessoas primeiro’, em português.“Eu quero que as pessoas se sintam bem aqui. Que gostem de vir trabalhar. Que se sintam recompensadas, com autonomia, com espaço para errar e para crescer”, afirma a diretora.
A equipa é maioritariamente feminina e relativamente jovem, algo que aconteceu de forma orgânica. “Nunca foi uma opção não contratar homens. Aconteceu assim. Os currículos que chegam são maioritariamente de mulheres. O que procuro é formação, valores e empatia. O resto aprende-se”.
O dia a dia é dinâmico e nunca igual. Cada pedido é um projeto novo, cada cliente traz uma necessidade diferente. Há um departamento de produção que faz a ponte entre clientes e talentos, uma área administrativa e financeira, a componente técnica e uma gestão muito próxima por parte da fundadora. “Almoçamos sempre juntas. À volta da mesa surgem muitas ideias. É ali que se pensa o futuro”.

Marta Correia defende: “O sucesso de uma empresa depende da energia de quem lá trabalha"
Um espaço que reflete uma forma de estar
O espaço físico da ZOV diz muito sobre a empresa. A mesa de almoços partilhados, o pátio onde todas param juntas. Tudo aponta para uma lógica de proximidade e partilha. Marta acredita que isso é fundamental, sobretudo num trabalho criativo. “Não gosto de estar nem de trabalhar sozinha. A criatividade nasce da troca, de ouvir o outro, de perceber como a pessoa está naquele dia”.
Essa atenção às pessoas estende-se também à forma como a ZOV encara o equilíbrio entre vida pessoal e profissional. “O sucesso de uma empresa depende da energia de quem lá trabalha. Se a pessoa não está em equilíbrio, isso nota-se. Nota-se na voz, na postura, na forma como atende um cliente”.
O futuro da voz num mundo em mudança
A inteligência artificial é hoje uma das grandes questões do setor. Marta fala do tema com realismo e sem alarmismo. “Não vale a pena ir contra. É uma onda. Temos de perceber como a podemos apanhar”.
A preocupação principal é proteger as vozes que representam e encontrar modelos éticos e sustentáveis para o futuro. Marta acredita que a IA terá espaço em projetos mais simples, como call centers ou audiolivros, mas que a publicidade continuará a exigir presença humana durante bastante tempo. “O nosso papel é continuar a ser um parceiro. Para os clientes e para os agenciados. Ajudar a encontrar soluções, acompanhar a tecnologia e acrescentar valor”.
No último ano, a ZOV deu um passo estratégico fora do território tradicional da voz com a criação da On It, uma agência de digital marketing que nasce de dentro da própria estrutura. O projeto surge da necessidade de diversificar serviços e de preparar a empresa para um contexto cada vez mais tecnológico, marcado pela aceleração da inteligência artificial e pelas novas formas de comunicação digital. Constituída por uma equipa muito jovem, maioritariamente da geração Z, a On It traz uma nova energia à casa e um olhar mais imediato sobre tendências, plataformas e linguagens digitais. “Precisávamos desse sangue novo, de pessoas com uma cabeça diferente da nossa, mais à frente em alguns temas”, explica Marta Correia. A nova agência trabalha em sinergia com a ZOV, potenciando marcas já clientes e apoiando também atores e locutores que precisam de presença digital estratégica. Mais do que um negócio autónomo, a On It funciona como um laboratório de futuro, onde a experiência de mais de duas décadas se cruza com uma nova geração habituada a pensar fora da caixa.

O desafio de arriscar
Para Marta Correia, empreender foi uma decisão prática, arriscada e consciente, tomada num momento em que não existiam garantias nem modelos a seguir. “Foi uma aventura. Larguei uma empresa onde estava há dez anos para criar algo que não existia. Não fazia ideia de como ia correr”, recorda. A segurança veio, em parte, do apoio familiar, que lhe permitiu arriscar numa fase em que tinha duas filhas pequenas. “Sabia que, se corresse mal, tinha uma rede de apoio. Isso dá-nos coragem para avançar”. Ao longo do tempo, esse risco transformou-se numa construção sólida, feita de persistência, aprendizagem e de uma grande capacidade de adaptação a um mercado em constante mudança.
Hoje, enquanto fundadora e diretora, Marta reconhece que liderar um projeto próprio é também um exercício de solidão e responsabilidade. “Liderar é, muitas vezes, solitário. Temos de parar, refletir e decidir caminhos. Há muita pressão e uma expectativa constante de que não podemos fraquejar”. Ainda assim, não acredita numa liderança distante e infalível. “Não acredito em líderes que nunca têm medo. Acho importante dizermos quando temos receio e partilharmos isso com a equipa”.
Para quem quer empreender, deixa um conselho simples e exigente ao mesmo tempo: “É fazer as coisas com paixão e com propósito. Acreditar genuinamente no projeto, valorizar as pessoas e manter a ética. O crescimento pode ser mais lento, mas construído numa base de confiança e credibilidade”.
Uma agência que não quer ser só uma agência
Antes de sair, volto a atravessar o open space. Há uma sensação de equilíbrio entre exigência e bem-estar. A ZOV não é apenas uma agência de voz. É um espaço onde a voz é tratada como identidade, trabalho e relação. Marta Correia resume essa filosofia de forma simples. “Quem cria um projeto tem de o fazer com paixão e propósito. Valorizar pessoas, ser ético, acreditar. O resto constrói-se”. Na Cruz Quebrada, num edifício cor-de-rosa que guarda vozes conhecidas de todos nós, percebe-se que essa construção acontece todos os dias, uma gravação de cada vez.

#Protagonistas
AGÊNCIA DO MÊS: ZOV
Na edição de janeiro da série Agência do Mês, entrámos na ZOV para conhecer o espaço, a equipa e a visão de quem fez da voz um projeto com propósito. A agência liderada por Marta Correia dá corpo a um negócio quase invisível, mas absolutamente essencial.
A série de reportagens Agência do Mês parte do imaginário norte-americano do Employee of The Month para destacar o trabalho de uma agência portuguesa. Não é um ranking. Não é um prémio. É um mergulho mais demorado nas estruturas que se revelam essenciais a tantos negócios e que, quase sempre, permanecem na sombra. É o reconhecimento do MOTIVO ao trabalho que desenvolvem. E é mais uma oportunidade de dar a conhecer empresas que merecem.
O portão grande do edifício cor-de-rosa na Cruz Quebrada esconde um pequeno pátio interior. É preciso ultrapassá-lo para perceber o que acontece do lado de dentro. Quando entro, todas as colaboradoras da ZOV estão ali, a aproveitar o sol da pausa de almoço. Falam, riem, partilham histórias do dia. Não parece uma agência no sentido clássico da palavra. Parece antes um espaço onde as pessoas se sentem suficientemente à vontade para parar juntas, respirar e continuar.
Lá dentro, o ambiente confirma essa primeira impressão. Um open space com várias secretárias, uma copa funcional e, ao centro, uma mesa comprida onde todos os dias a equipa se senta para almoçar em conjunto. A circulação é tranquila, sem pressa excessiva, mas com uma sensação clara de foco. Subimos ao primeiro andar. Três estúdios alinham-se ao longo do corredor iluminado por claraboias. É ali onde se gravam muitas das vozes que fazem parte do quotidiano de milhões de pessoas, mesmo que a maioria nunca saiba quem está por detrás delas.
Ao fundo do corredor, o escritório de Marta Correia, 52 anos de idade, fundadora e diretora da ZOV. É ali que esta história começa, mas também onde continua a ser pensada todos os dias.

Marta Correia, fundadora da ZOV
Uma agência que nasceu de uma ausência
A ZOV é hoje uma referência incontornável no mercado da voz em Portugal. Com quase 20 anos de experiência, trabalha em projetos nacionais e internacionais, representa cerca de 90% das vozes profissionais do mercado e soma mais de mil clientes. Dá voz à locução publicitária, a equipamentos de GPS, call centers, eventos, speakers, vídeos corporativos, cursos de e-learning e muito mais. Está em todo o lado e, ao mesmo tempo, é quase invisível.
Quando Marta Correia fala da origem da ZOV, fala sobretudo de uma ausência. Durante anos trabalhou em agências de publicidade e, mais tarde, em estúdios de som, sempre ligada à produção e ao áudio. Foi nesse percurso que percebeu que o mercado português não tinha uma estrutura dedicada exclusivamente à gestão profissional da voz. “Em todos os países já existiam agências de voz, mas em Portugal, não havia nenhuma. Percebi que havia ali uma lacuna clara e pensei que estava na altura de me aventurar”, explica.
A decisão não foi simples. Marta deixou uma empresa onde trabalhava há uma década para criar algo que não existia. “Foi começar do zero. Não havia modelo, não havia referências cá. Mandei centenas de e-mails para agências de voz lá fora. Só uma respondeu, uma agência australiana. Esse e-mail foi o meu mote”.
Com base nessa partilha de experiências, que dura até aos dias de hoje, e numa forte rede de contactos no mercado português, a ZOV começou a ganhar forma em 2007. O maior desafio inicial foi explicar o modelo de negócio. “O mercado estava muito formatado. Eram os estúdios que escolhiam a voz, e escolhiam sempre as mesmas pessoas. Foi preciso mostrar que nós não vínhamos substituir ninguém, mas acrescentar valor. Porque também viemos facilitar o trabalho dos estúdios, que não tinham tempo nem recursos para procurar novas vozes”.

A equipa da ZOV, fotografada recentemente nas instalações da agência
Foco absoluto na voz e nas pessoas
Desde o início, a ZOV definiu um posicionamento muito claro. Focar-se apenas na voz e tratá-la como um instrumento profissional com valor próprio. Hoje representa cerca de 500 atores e locutores, exclusivos e não exclusivos, gerindo expectativas, carreiras e oportunidades com um cuidado que Marta descreve como essencial. “A ética nunca esteve em causa. O valor de uma voz é inegociável. Estamos a falar de pessoas que vivem da sua voz, que a estudaram, que a trabalharam. Isso traz-nos uma enorme responsabilidade”.
Esse princípio refletiu-se também na forma como a ZOV cresceu num mercado onde surgiram outros players. Marta é clara ao afirmar que nunca quis crescer à custa de práticas que desvalorizassem o trabalho dos profissionais. “Preferimos dizer que não, a entrar num jogo que não respeita o valor do trabalho. A coerência vale mais do que um crescimento rápido”.
As pessoas primeiro
A cultura interna da ZOV resume-se numa expressão simples, mas levada à letra. People first, ou ‘as pessoas primeiro’, em português.“Eu quero que as pessoas se sintam bem aqui. Que gostem de vir trabalhar. Que se sintam recompensadas, com autonomia, com espaço para errar e para crescer”, afirma a diretora.
A equipa é maioritariamente feminina e relativamente jovem, algo que aconteceu de forma orgânica. “Nunca foi uma opção não contratar homens. Aconteceu assim. Os currículos que chegam são maioritariamente de mulheres. O que procuro é formação, valores e empatia. O resto aprende-se”.
O dia a dia é dinâmico e nunca igual. Cada pedido é um projeto novo, cada cliente traz uma necessidade diferente. Há um departamento de produção que faz a ponte entre clientes e talentos, uma área administrativa e financeira, a componente técnica e uma gestão muito próxima por parte da fundadora. “Almoçamos sempre juntas. À volta da mesa surgem muitas ideias. É ali que se pensa o futuro”.

Marta Correia defende: “O sucesso de uma empresa depende da energia de quem lá trabalha"
Um espaço que reflete uma forma de estar
O espaço físico da ZOV diz muito sobre a empresa. A mesa de almoços partilhados, o pátio onde todas param juntas. Tudo aponta para uma lógica de proximidade e partilha. Marta acredita que isso é fundamental, sobretudo num trabalho criativo. “Não gosto de estar nem de trabalhar sozinha. A criatividade nasce da troca, de ouvir o outro, de perceber como a pessoa está naquele dia”.
Essa atenção às pessoas estende-se também à forma como a ZOV encara o equilíbrio entre vida pessoal e profissional. “O sucesso de uma empresa depende da energia de quem lá trabalha. Se a pessoa não está em equilíbrio, isso nota-se. Nota-se na voz, na postura, na forma como atende um cliente”.
O futuro da voz num mundo em mudança
A inteligência artificial é hoje uma das grandes questões do setor. Marta fala do tema com realismo e sem alarmismo. “Não vale a pena ir contra. É uma onda. Temos de perceber como a podemos apanhar”.
A preocupação principal é proteger as vozes que representam e encontrar modelos éticos e sustentáveis para o futuro. Marta acredita que a IA terá espaço em projetos mais simples, como call centers ou audiolivros, mas que a publicidade continuará a exigir presença humana durante bastante tempo. “O nosso papel é continuar a ser um parceiro. Para os clientes e para os agenciados. Ajudar a encontrar soluções, acompanhar a tecnologia e acrescentar valor”.
No último ano, a ZOV deu um passo estratégico fora do território tradicional da voz com a criação da On It, uma agência de digital marketing que nasce de dentro da própria estrutura. O projeto surge da necessidade de diversificar serviços e de preparar a empresa para um contexto cada vez mais tecnológico, marcado pela aceleração da inteligência artificial e pelas novas formas de comunicação digital. Constituída por uma equipa muito jovem, maioritariamente da geração Z, a On It traz uma nova energia à casa e um olhar mais imediato sobre tendências, plataformas e linguagens digitais. “Precisávamos desse sangue novo, de pessoas com uma cabeça diferente da nossa, mais à frente em alguns temas”, explica Marta Correia. A nova agência trabalha em sinergia com a ZOV, potenciando marcas já clientes e apoiando também atores e locutores que precisam de presença digital estratégica. Mais do que um negócio autónomo, a On It funciona como um laboratório de futuro, onde a experiência de mais de duas décadas se cruza com uma nova geração habituada a pensar fora da caixa.

O desafio de arriscar
Para Marta Correia, empreender foi uma decisão prática, arriscada e consciente, tomada num momento em que não existiam garantias nem modelos a seguir. “Foi uma aventura. Larguei uma empresa onde estava há dez anos para criar algo que não existia. Não fazia ideia de como ia correr”, recorda. A segurança veio, em parte, do apoio familiar, que lhe permitiu arriscar numa fase em que tinha duas filhas pequenas. “Sabia que, se corresse mal, tinha uma rede de apoio. Isso dá-nos coragem para avançar”. Ao longo do tempo, esse risco transformou-se numa construção sólida, feita de persistência, aprendizagem e de uma grande capacidade de adaptação a um mercado em constante mudança.
Hoje, enquanto fundadora e diretora, Marta reconhece que liderar um projeto próprio é também um exercício de solidão e responsabilidade. “Liderar é, muitas vezes, solitário. Temos de parar, refletir e decidir caminhos. Há muita pressão e uma expectativa constante de que não podemos fraquejar”. Ainda assim, não acredita numa liderança distante e infalível. “Não acredito em líderes que nunca têm medo. Acho importante dizermos quando temos receio e partilharmos isso com a equipa”.
Para quem quer empreender, deixa um conselho simples e exigente ao mesmo tempo: “É fazer as coisas com paixão e com propósito. Acreditar genuinamente no projeto, valorizar as pessoas e manter a ética. O crescimento pode ser mais lento, mas construído numa base de confiança e credibilidade”.
Uma agência que não quer ser só uma agência
Antes de sair, volto a atravessar o open space. Há uma sensação de equilíbrio entre exigência e bem-estar. A ZOV não é apenas uma agência de voz. É um espaço onde a voz é tratada como identidade, trabalho e relação. Marta Correia resume essa filosofia de forma simples. “Quem cria um projeto tem de o fazer com paixão e propósito. Valorizar pessoas, ser ético, acreditar. O resto constrói-se”. Na Cruz Quebrada, num edifício cor-de-rosa que guarda vozes conhecidas de todos nós, percebe-se que essa construção acontece todos os dias, uma gravação de cada vez.

#Protagonistas
AGÊNCIA DO MÊS: ZOV
Na edição de janeiro da série Agência do Mês, entrámos na ZOV para conhecer o espaço, a equipa e a visão de quem fez da voz um projeto com propósito. A agência liderada por Marta Correia dá corpo a um negócio quase invisível, mas absolutamente essencial.
A série de reportagens Agência do Mês parte do imaginário norte-americano do Employee of The Month para destacar o trabalho de uma agência portuguesa. Não é um ranking. Não é um prémio. É um mergulho mais demorado nas estruturas que se revelam essenciais a tantos negócios e que, quase sempre, permanecem na sombra. É o reconhecimento do MOTIVO ao trabalho que desenvolvem. E é mais uma oportunidade de dar a conhecer empresas que merecem.
O portão grande do edifício cor-de-rosa na Cruz Quebrada esconde um pequeno pátio interior. É preciso ultrapassá-lo para perceber o que acontece do lado de dentro. Quando entro, todas as colaboradoras da ZOV estão ali, a aproveitar o sol da pausa de almoço. Falam, riem, partilham histórias do dia. Não parece uma agência no sentido clássico da palavra. Parece antes um espaço onde as pessoas se sentem suficientemente à vontade para parar juntas, respirar e continuar.
Lá dentro, o ambiente confirma essa primeira impressão. Um open space com várias secretárias, uma copa funcional e, ao centro, uma mesa comprida onde todos os dias a equipa se senta para almoçar em conjunto. A circulação é tranquila, sem pressa excessiva, mas com uma sensação clara de foco. Subimos ao primeiro andar. Três estúdios alinham-se ao longo do corredor iluminado por claraboias. É ali onde se gravam muitas das vozes que fazem parte do quotidiano de milhões de pessoas, mesmo que a maioria nunca saiba quem está por detrás delas.
Ao fundo do corredor, o escritório de Marta Correia, 52 anos de idade, fundadora e diretora da ZOV. É ali que esta história começa, mas também onde continua a ser pensada todos os dias.

Marta Correia, fundadora da ZOV
Uma agência que nasceu de uma ausência
A ZOV é hoje uma referência incontornável no mercado da voz em Portugal. Com quase 20 anos de experiência, trabalha em projetos nacionais e internacionais, representa cerca de 90% das vozes profissionais do mercado e soma mais de mil clientes. Dá voz à locução publicitária, a equipamentos de GPS, call centers, eventos, speakers, vídeos corporativos, cursos de e-learning e muito mais. Está em todo o lado e, ao mesmo tempo, é quase invisível.
Quando Marta Correia fala da origem da ZOV, fala sobretudo de uma ausência. Durante anos trabalhou em agências de publicidade e, mais tarde, em estúdios de som, sempre ligada à produção e ao áudio. Foi nesse percurso que percebeu que o mercado português não tinha uma estrutura dedicada exclusivamente à gestão profissional da voz. “Em todos os países já existiam agências de voz, mas em Portugal, não havia nenhuma. Percebi que havia ali uma lacuna clara e pensei que estava na altura de me aventurar”, explica.
A decisão não foi simples. Marta deixou uma empresa onde trabalhava há uma década para criar algo que não existia. “Foi começar do zero. Não havia modelo, não havia referências cá. Mandei centenas de e-mails para agências de voz lá fora. Só uma respondeu, uma agência australiana. Esse e-mail foi o meu mote”.
Com base nessa partilha de experiências, que dura até aos dias de hoje, e numa forte rede de contactos no mercado português, a ZOV começou a ganhar forma em 2007. O maior desafio inicial foi explicar o modelo de negócio. “O mercado estava muito formatado. Eram os estúdios que escolhiam a voz, e escolhiam sempre as mesmas pessoas. Foi preciso mostrar que nós não vínhamos substituir ninguém, mas acrescentar valor. Porque também viemos facilitar o trabalho dos estúdios, que não tinham tempo nem recursos para procurar novas vozes”.

A equipa da ZOV, fotografada recentemente nas instalações da agência
Foco absoluto na voz e nas pessoas
Desde o início, a ZOV definiu um posicionamento muito claro. Focar-se apenas na voz e tratá-la como um instrumento profissional com valor próprio. Hoje representa cerca de 500 atores e locutores, exclusivos e não exclusivos, gerindo expectativas, carreiras e oportunidades com um cuidado que Marta descreve como essencial. “A ética nunca esteve em causa. O valor de uma voz é inegociável. Estamos a falar de pessoas que vivem da sua voz, que a estudaram, que a trabalharam. Isso traz-nos uma enorme responsabilidade”.
Esse princípio refletiu-se também na forma como a ZOV cresceu num mercado onde surgiram outros players. Marta é clara ao afirmar que nunca quis crescer à custa de práticas que desvalorizassem o trabalho dos profissionais. “Preferimos dizer que não, a entrar num jogo que não respeita o valor do trabalho. A coerência vale mais do que um crescimento rápido”.
As pessoas primeiro
A cultura interna da ZOV resume-se numa expressão simples, mas levada à letra. People first, ou ‘as pessoas primeiro’, em português.“Eu quero que as pessoas se sintam bem aqui. Que gostem de vir trabalhar. Que se sintam recompensadas, com autonomia, com espaço para errar e para crescer”, afirma a diretora.
A equipa é maioritariamente feminina e relativamente jovem, algo que aconteceu de forma orgânica. “Nunca foi uma opção não contratar homens. Aconteceu assim. Os currículos que chegam são maioritariamente de mulheres. O que procuro é formação, valores e empatia. O resto aprende-se”.
O dia a dia é dinâmico e nunca igual. Cada pedido é um projeto novo, cada cliente traz uma necessidade diferente. Há um departamento de produção que faz a ponte entre clientes e talentos, uma área administrativa e financeira, a componente técnica e uma gestão muito próxima por parte da fundadora. “Almoçamos sempre juntas. À volta da mesa surgem muitas ideias. É ali que se pensa o futuro”.

Marta Correia defende: “O sucesso de uma empresa depende da energia de quem lá trabalha"
Um espaço que reflete uma forma de estar
O espaço físico da ZOV diz muito sobre a empresa. A mesa de almoços partilhados, o pátio onde todas param juntas. Tudo aponta para uma lógica de proximidade e partilha. Marta acredita que isso é fundamental, sobretudo num trabalho criativo. “Não gosto de estar nem de trabalhar sozinha. A criatividade nasce da troca, de ouvir o outro, de perceber como a pessoa está naquele dia”.
Essa atenção às pessoas estende-se também à forma como a ZOV encara o equilíbrio entre vida pessoal e profissional. “O sucesso de uma empresa depende da energia de quem lá trabalha. Se a pessoa não está em equilíbrio, isso nota-se. Nota-se na voz, na postura, na forma como atende um cliente”.
O futuro da voz num mundo em mudança
A inteligência artificial é hoje uma das grandes questões do setor. Marta fala do tema com realismo e sem alarmismo. “Não vale a pena ir contra. É uma onda. Temos de perceber como a podemos apanhar”.
A preocupação principal é proteger as vozes que representam e encontrar modelos éticos e sustentáveis para o futuro. Marta acredita que a IA terá espaço em projetos mais simples, como call centers ou audiolivros, mas que a publicidade continuará a exigir presença humana durante bastante tempo. “O nosso papel é continuar a ser um parceiro. Para os clientes e para os agenciados. Ajudar a encontrar soluções, acompanhar a tecnologia e acrescentar valor”.
No último ano, a ZOV deu um passo estratégico fora do território tradicional da voz com a criação da On It, uma agência de digital marketing que nasce de dentro da própria estrutura. O projeto surge da necessidade de diversificar serviços e de preparar a empresa para um contexto cada vez mais tecnológico, marcado pela aceleração da inteligência artificial e pelas novas formas de comunicação digital. Constituída por uma equipa muito jovem, maioritariamente da geração Z, a On It traz uma nova energia à casa e um olhar mais imediato sobre tendências, plataformas e linguagens digitais. “Precisávamos desse sangue novo, de pessoas com uma cabeça diferente da nossa, mais à frente em alguns temas”, explica Marta Correia. A nova agência trabalha em sinergia com a ZOV, potenciando marcas já clientes e apoiando também atores e locutores que precisam de presença digital estratégica. Mais do que um negócio autónomo, a On It funciona como um laboratório de futuro, onde a experiência de mais de duas décadas se cruza com uma nova geração habituada a pensar fora da caixa.

O desafio de arriscar
Para Marta Correia, empreender foi uma decisão prática, arriscada e consciente, tomada num momento em que não existiam garantias nem modelos a seguir. “Foi uma aventura. Larguei uma empresa onde estava há dez anos para criar algo que não existia. Não fazia ideia de como ia correr”, recorda. A segurança veio, em parte, do apoio familiar, que lhe permitiu arriscar numa fase em que tinha duas filhas pequenas. “Sabia que, se corresse mal, tinha uma rede de apoio. Isso dá-nos coragem para avançar”. Ao longo do tempo, esse risco transformou-se numa construção sólida, feita de persistência, aprendizagem e de uma grande capacidade de adaptação a um mercado em constante mudança.
Hoje, enquanto fundadora e diretora, Marta reconhece que liderar um projeto próprio é também um exercício de solidão e responsabilidade. “Liderar é, muitas vezes, solitário. Temos de parar, refletir e decidir caminhos. Há muita pressão e uma expectativa constante de que não podemos fraquejar”. Ainda assim, não acredita numa liderança distante e infalível. “Não acredito em líderes que nunca têm medo. Acho importante dizermos quando temos receio e partilharmos isso com a equipa”.
Para quem quer empreender, deixa um conselho simples e exigente ao mesmo tempo: “É fazer as coisas com paixão e com propósito. Acreditar genuinamente no projeto, valorizar as pessoas e manter a ética. O crescimento pode ser mais lento, mas construído numa base de confiança e credibilidade”.
Uma agência que não quer ser só uma agência
Antes de sair, volto a atravessar o open space. Há uma sensação de equilíbrio entre exigência e bem-estar. A ZOV não é apenas uma agência de voz. É um espaço onde a voz é tratada como identidade, trabalho e relação. Marta Correia resume essa filosofia de forma simples. “Quem cria um projeto tem de o fazer com paixão e propósito. Valorizar pessoas, ser ético, acreditar. O resto constrói-se”. Na Cruz Quebrada, num edifício cor-de-rosa que guarda vozes conhecidas de todos nós, percebe-se que essa construção acontece todos os dias, uma gravação de cada vez.



