Ela nunca dá trabalho
#Conhecimento
Opinião

Quem já geriu uma equipa reconhece-a antes de chegar ao fim desta frase. É a pessoa para quem se reencaminha o e-mail que ninguém quer abrir, com uma linha por cima a perguntar se "consegue ver isto?". Ela consegue, sempre, e responde antes da tarde acabar com o assunto resolvido e sem uma palavra sobre o que lhe custou.
É provável que alguém já lhe tenha agradecido, talvez até em público. É menos provável que alguém lhe tenha perguntado como está, porque nunca deu motivo para isso. E se lhe perguntassem, diria que está bem, e estaria a ser sincera, porque é assim que ela própria se lê, pelo que consegue fazer, e por enquanto consegue fazer tudo o que lhe pedem.
O que se passa por baixo é mais silencioso do que qualquer queixa. Esta pessoa aguenta porque compensa, e compensa quase sempre coisas que não são suas, o atraso de um colega ou a decisão que ficou por tomar acima dela. Compensar gasta, e o que gasta sai de uma reserva que não aparece em nenhum lado, nem nos números da equipa nem naquilo que ela própria sente ao fim do dia. Como continua a entregar, a organização lê estabilidade e faz o que parece mais sensato, que é dar-lhe mais, e o dossier seguinte vai para quem nunca falhou. Até ao dia em que falha de uma vez, sem um aviso que se pudesse ter acompanhado, e sai, ou decide como nunca tinha decidido, e toda a gente jura que estava tudo bem.
Descrevi este mecanismo, a que chamei Espiral de Carga Compensatória (Compensatory Load Spiral)*, num estudo publicado este ano. O que mais me inquieta nele é que funciona sem que ninguém esconda nada. Quem aguenta não está a fingir e quem avalia está de boa-fé, a olhar com atenção para os sinais que aprendeu a procurar. Encontro-o cada vez mais nas organizações com que trabalho, e quase sempre nas pessoas em quem essas organizações mais confiam, o que torna a ruptura, quando chega, muito mais cara do que a conversa que a teria evitado.
Nada disto é um argumento contra quem aguenta. A capacidade de absorver o que corre mal, sem deixar cair o resto, é das coisas mais valiosas que uma empresa pode ter, e boa parte do que escrevi no meu livro, O Último Activo, parte dessa convicção. O que falha é o instrumento com que a lemos. Quem olha só para o que a pessoa entrega vê o mesmo quadro tranquilo até à véspera da ruptura, e protegê-la pede outra leitura, a do estado em que ela decide. Começa por tratar o silêncio de alguém como informação e não como ausência de problema, e por desconfiar do reflexo de dar a carga seguinte a quem nunca falhou só porque nunca falhou. Passa também por perguntar o que ficou por fazer esta semana, que é uma pergunta que obriga a olhar para aquilo que se sacrificou para o resultado aparecer.
A pergunta que quase todos os líderes fazem no corredor, se está tudo bem, é a única a que estas pessoas sabem responder sem pensar. Respondem que sim, com verdade, e voltam ao trabalho com mais uma tarefa nas mãos. O cuidado que lhes devemos começa por olhar para essas mãos, que são precisamente as que nunca se estendem.
Teixeira, H. (2026). The Compensatory Load Spiral (CLS): Hidden-State Depletion and Abrupt Failure in Senior Layers Under Output-Based Allocation. Aurenia Editions Working Paper No. 1. https://doi.org/10.5281/zenodo.22239347
Ela nunca dá trabalho
#Conhecimento
Opinião

Quem já geriu uma equipa reconhece-a antes de chegar ao fim desta frase. É a pessoa para quem se reencaminha o e-mail que ninguém quer abrir, com uma linha por cima a perguntar se "consegue ver isto?". Ela consegue, sempre, e responde antes da tarde acabar com o assunto resolvido e sem uma palavra sobre o que lhe custou.
É provável que alguém já lhe tenha agradecido, talvez até em público. É menos provável que alguém lhe tenha perguntado como está, porque nunca deu motivo para isso. E se lhe perguntassem, diria que está bem, e estaria a ser sincera, porque é assim que ela própria se lê, pelo que consegue fazer, e por enquanto consegue fazer tudo o que lhe pedem.
O que se passa por baixo é mais silencioso do que qualquer queixa. Esta pessoa aguenta porque compensa, e compensa quase sempre coisas que não são suas, o atraso de um colega ou a decisão que ficou por tomar acima dela. Compensar gasta, e o que gasta sai de uma reserva que não aparece em nenhum lado, nem nos números da equipa nem naquilo que ela própria sente ao fim do dia. Como continua a entregar, a organização lê estabilidade e faz o que parece mais sensato, que é dar-lhe mais, e o dossier seguinte vai para quem nunca falhou. Até ao dia em que falha de uma vez, sem um aviso que se pudesse ter acompanhado, e sai, ou decide como nunca tinha decidido, e toda a gente jura que estava tudo bem.
Descrevi este mecanismo, a que chamei Espiral de Carga Compensatória (Compensatory Load Spiral)*, num estudo publicado este ano. O que mais me inquieta nele é que funciona sem que ninguém esconda nada. Quem aguenta não está a fingir e quem avalia está de boa-fé, a olhar com atenção para os sinais que aprendeu a procurar. Encontro-o cada vez mais nas organizações com que trabalho, e quase sempre nas pessoas em quem essas organizações mais confiam, o que torna a ruptura, quando chega, muito mais cara do que a conversa que a teria evitado.
Nada disto é um argumento contra quem aguenta. A capacidade de absorver o que corre mal, sem deixar cair o resto, é das coisas mais valiosas que uma empresa pode ter, e boa parte do que escrevi no meu livro, O Último Activo, parte dessa convicção. O que falha é o instrumento com que a lemos. Quem olha só para o que a pessoa entrega vê o mesmo quadro tranquilo até à véspera da ruptura, e protegê-la pede outra leitura, a do estado em que ela decide. Começa por tratar o silêncio de alguém como informação e não como ausência de problema, e por desconfiar do reflexo de dar a carga seguinte a quem nunca falhou só porque nunca falhou. Passa também por perguntar o que ficou por fazer esta semana, que é uma pergunta que obriga a olhar para aquilo que se sacrificou para o resultado aparecer.
A pergunta que quase todos os líderes fazem no corredor, se está tudo bem, é a única a que estas pessoas sabem responder sem pensar. Respondem que sim, com verdade, e voltam ao trabalho com mais uma tarefa nas mãos. O cuidado que lhes devemos começa por olhar para essas mãos, que são precisamente as que nunca se estendem.
Teixeira, H. (2026). The Compensatory Load Spiral (CLS): Hidden-State Depletion and Abrupt Failure in Senior Layers Under Output-Based Allocation. Aurenia Editions Working Paper No. 1. https://doi.org/10.5281/zenodo.22239347
Ela nunca dá trabalho
#Conhecimento
Opinião

Quem já geriu uma equipa reconhece-a antes de chegar ao fim desta frase. É a pessoa para quem se reencaminha o e-mail que ninguém quer abrir, com uma linha por cima a perguntar se "consegue ver isto?". Ela consegue, sempre, e responde antes da tarde acabar com o assunto resolvido e sem uma palavra sobre o que lhe custou.
É provável que alguém já lhe tenha agradecido, talvez até em público. É menos provável que alguém lhe tenha perguntado como está, porque nunca deu motivo para isso. E se lhe perguntassem, diria que está bem, e estaria a ser sincera, porque é assim que ela própria se lê, pelo que consegue fazer, e por enquanto consegue fazer tudo o que lhe pedem.
O que se passa por baixo é mais silencioso do que qualquer queixa. Esta pessoa aguenta porque compensa, e compensa quase sempre coisas que não são suas, o atraso de um colega ou a decisão que ficou por tomar acima dela. Compensar gasta, e o que gasta sai de uma reserva que não aparece em nenhum lado, nem nos números da equipa nem naquilo que ela própria sente ao fim do dia. Como continua a entregar, a organização lê estabilidade e faz o que parece mais sensato, que é dar-lhe mais, e o dossier seguinte vai para quem nunca falhou. Até ao dia em que falha de uma vez, sem um aviso que se pudesse ter acompanhado, e sai, ou decide como nunca tinha decidido, e toda a gente jura que estava tudo bem.
Descrevi este mecanismo, a que chamei Espiral de Carga Compensatória (Compensatory Load Spiral)*, num estudo publicado este ano. O que mais me inquieta nele é que funciona sem que ninguém esconda nada. Quem aguenta não está a fingir e quem avalia está de boa-fé, a olhar com atenção para os sinais que aprendeu a procurar. Encontro-o cada vez mais nas organizações com que trabalho, e quase sempre nas pessoas em quem essas organizações mais confiam, o que torna a ruptura, quando chega, muito mais cara do que a conversa que a teria evitado.
Nada disto é um argumento contra quem aguenta. A capacidade de absorver o que corre mal, sem deixar cair o resto, é das coisas mais valiosas que uma empresa pode ter, e boa parte do que escrevi no meu livro, O Último Activo, parte dessa convicção. O que falha é o instrumento com que a lemos. Quem olha só para o que a pessoa entrega vê o mesmo quadro tranquilo até à véspera da ruptura, e protegê-la pede outra leitura, a do estado em que ela decide. Começa por tratar o silêncio de alguém como informação e não como ausência de problema, e por desconfiar do reflexo de dar a carga seguinte a quem nunca falhou só porque nunca falhou. Passa também por perguntar o que ficou por fazer esta semana, que é uma pergunta que obriga a olhar para aquilo que se sacrificou para o resultado aparecer.
A pergunta que quase todos os líderes fazem no corredor, se está tudo bem, é a única a que estas pessoas sabem responder sem pensar. Respondem que sim, com verdade, e voltam ao trabalho com mais uma tarefa nas mãos. O cuidado que lhes devemos começa por olhar para essas mãos, que são precisamente as que nunca se estendem.
Teixeira, H. (2026). The Compensatory Load Spiral (CLS): Hidden-State Depletion and Abrupt Failure in Senior Layers Under Output-Based Allocation. Aurenia Editions Working Paper No. 1. https://doi.org/10.5281/zenodo.22239347
Ela nunca dá trabalho
#Conhecimento
Opinião

Quem já geriu uma equipa reconhece-a antes de chegar ao fim desta frase. É a pessoa para quem se reencaminha o e-mail que ninguém quer abrir, com uma linha por cima a perguntar se "consegue ver isto?". Ela consegue, sempre, e responde antes da tarde acabar com o assunto resolvido e sem uma palavra sobre o que lhe custou.
É provável que alguém já lhe tenha agradecido, talvez até em público. É menos provável que alguém lhe tenha perguntado como está, porque nunca deu motivo para isso. E se lhe perguntassem, diria que está bem, e estaria a ser sincera, porque é assim que ela própria se lê, pelo que consegue fazer, e por enquanto consegue fazer tudo o que lhe pedem.
O que se passa por baixo é mais silencioso do que qualquer queixa. Esta pessoa aguenta porque compensa, e compensa quase sempre coisas que não são suas, o atraso de um colega ou a decisão que ficou por tomar acima dela. Compensar gasta, e o que gasta sai de uma reserva que não aparece em nenhum lado, nem nos números da equipa nem naquilo que ela própria sente ao fim do dia. Como continua a entregar, a organização lê estabilidade e faz o que parece mais sensato, que é dar-lhe mais, e o dossier seguinte vai para quem nunca falhou. Até ao dia em que falha de uma vez, sem um aviso que se pudesse ter acompanhado, e sai, ou decide como nunca tinha decidido, e toda a gente jura que estava tudo bem.
Descrevi este mecanismo, a que chamei Espiral de Carga Compensatória (Compensatory Load Spiral)*, num estudo publicado este ano. O que mais me inquieta nele é que funciona sem que ninguém esconda nada. Quem aguenta não está a fingir e quem avalia está de boa-fé, a olhar com atenção para os sinais que aprendeu a procurar. Encontro-o cada vez mais nas organizações com que trabalho, e quase sempre nas pessoas em quem essas organizações mais confiam, o que torna a ruptura, quando chega, muito mais cara do que a conversa que a teria evitado.
Nada disto é um argumento contra quem aguenta. A capacidade de absorver o que corre mal, sem deixar cair o resto, é das coisas mais valiosas que uma empresa pode ter, e boa parte do que escrevi no meu livro, O Último Activo, parte dessa convicção. O que falha é o instrumento com que a lemos. Quem olha só para o que a pessoa entrega vê o mesmo quadro tranquilo até à véspera da ruptura, e protegê-la pede outra leitura, a do estado em que ela decide. Começa por tratar o silêncio de alguém como informação e não como ausência de problema, e por desconfiar do reflexo de dar a carga seguinte a quem nunca falhou só porque nunca falhou. Passa também por perguntar o que ficou por fazer esta semana, que é uma pergunta que obriga a olhar para aquilo que se sacrificou para o resultado aparecer.
A pergunta que quase todos os líderes fazem no corredor, se está tudo bem, é a única a que estas pessoas sabem responder sem pensar. Respondem que sim, com verdade, e voltam ao trabalho com mais uma tarefa nas mãos. O cuidado que lhes devemos começa por olhar para essas mãos, que são precisamente as que nunca se estendem.




