
Crítica | PRIMETIME: Robert Pattinson e o pelourinho do horário nobre
#Motivação
Opinião
After Work

Numa das interpretações mais interessantes da sua carreira, Robert Pattinson veste o fato de Chris Hansen, o caçador de predadores sexuais da televisão americana, e transforma-o numa criatura que mete medo. Na estreia de Lance Oppenheim na ficção, a câmara é arma e tribunal, ao mesmo tempo, e o espectador acaba sentado no banco dos cúmplices.
★★★★☆

Quantas vezes passaste pelo pelourinho de uma vila portuguesa sem te perguntares para que servia? Durante séculos, era ali que se expunham os condenados à vergonha pública. Nos Estados Unidos de meados dos anos 2000, o pelourinho mudou-se para a sala de estar e passou a chamar-se To Catch a Predator. Neste segmento do Dateline, da NBC, voluntários adultos faziam-se passar por menores em salas de chat e, quando um homem propunha um encontro sexual, atraíam-no para uma casa cheia de câmaras escondidas. Em vez do adolescente que esperava, aparecia Chris Hansen, de fato escuro e conversas impressas na mão, com uma pergunta que o trailer de Primetime transformou em meme: “You see how this looks, right?”.
“Antigamente havia um pelourinho em cada cidade civilizada”, diz o Hansen de Pattinson a dada altura. “Agora, há uma televisão em cada casa, e eu estou nela”. Primetime recua a 2006, quando a NBC decide colocar o programa em horário nobre para rivalizar com a série fenómeno Lost (Perdidos, em português). Hansen e a produtora Andie Bender (Merritt Wever) precisam agora de presas maiores, a que chamam “baleias”, e contratam um jovem ator com cara de miúdo (Skyler Gisondo) para servir de isco. O argumento de Ajon Singh parte de uma reportagem da Esquire sobre uma das emboscadas mais célebres do programa. O que lá aconteceu fica para quem for ao cinema.

Na sua estreia em ficção, o cineasta Lance Oppenheim, oriundo do documentário, preferiu um drama com toques de horror a um biopic convencional. A aposta valeu-lhe sete minutos de aplausos no Festival de Veneza, onde o filme esteve em competição. Este parece ser o ano de Robert Pattinson. Depois de O Drama e d’A Odisseia, e antes de Duna: Parte Três, em Dezembro, Primetime é o mais arriscado dos quatro filmes que o ator estreia em 2026 e talvez aquele que lhe dê a primeira nomeação aos Óscares. É um papel capaz de dividir a Academia, mas é difícil ficar-lhe indiferente.
A cena inicial resume bem a sua grande interpretação e aquilo a que estamos prestes a assistir: antes de entrar em direto, Hansen fecha-se no camarim a ensaiar as mensagens obscenas dos homens que vai apanhar, à procura do tom certo, como quem declama Shakespeare. É grotesco e é também o retrato do programa que apresenta: a perversão alheia transformada em guião para ensaiar. Durante a rodagem, Oppenheim disse a Pattinson que ele estava a fazer de Chris Hansen, mas também de Jerry Maguire e de Drácula, e o ator levou essa a ideia à letra. Diante das câmaras, tem a voz mansa de um pivot. Fora delas, sua de nervos em frente ao espelho, goza com a produtora e inveja os colegas que cobrem a Guerra do Iraque. Antes de cada emboscada há nele um entusiasmo que mete medo e Pattinson nunca nos deixa esquecer que há qualquer coisa de predatório neste caçador de predadores.

Skyler Gisondo merece destaque como Dan Plum, um aspirante a ator que aceita fazer de isco para aparecer na televisão e juntar os créditos de que precisa para o cartão do sindicato dos atores. Aos poucos, deixa-se seduzir pelo jogo, e Gisondo faz a inocência da personagem desfazer-se lentamente à nossa frente. Merritt Wever chamou-lhe “o tronco da árvore” que segura o filme, e tem razão. Ela própria está excelente como Andie Bender, uma produtora de olhar afiado que nega a humanidade dos outros e a sua em nome das audiências. Se Gisondo é o anjo no ombro de Hansen, Wever é o diabo. Não seria de espantar se, hipoteticamente, forem considerados para a corrida aos Óscares de ator e atriz secundários.

Oppenheim filma tudo como uma cassete VHS esquecida numa gaveta, suja e pixelizada. Nos ecrãs, ao fundo, passa o julgamento de Saddam e a equipa de Hansen fala por rádio como uma unidade de forças especiais. A emboscada televisiva e a guerra falam aqui a mesma língua. Hansen jura que está a limpar o mundo de um mal ancestral, mas quanto mais popular é o programa, maior parece a epidemia.
No fundo, Primetime é uma reflexão sobre até onde se está disposto a ir pela fama. Hansen quer o horário nobre, Andie quer audiências e Dan quer o cartão do sindicato. Na NBC, ninguém quer saber dos métodos enquanto o programa render, e Jeff Zucker — o patrão da estação que se interpreta a si mesmo — di-lo sem rodeios: “Não percebo o vosso programa. Não gosto dele. Não acredito nele. Mas a América adora-o”. Não é a primeira vez que o cinema olha assim para a televisão. Veja-se Escândalo na TV (1976), onde uma estação descobre que um pivot à beira do colapso faz subir as audiências e transforma-o num profeta; ou Nightcrawler - Repórter na Noite (2014), onde o repórter de imagem interpretado por Jake Gyllenhaal começa por filmar crimes de madrugada e acaba a provocá-los para ter imagens melhores. Primetime cruza os dois: uma estação que só olha para os números e um apresentador disposto a tudo para os alimentar. Hansen precisa daquilo que diz combater e não hesita em instigar situações pouco éticas diante das câmaras. E nós, enquanto audiência, tornamo-nos cúmplices.

Não é, no entanto, um filme sem pontos a julgar. Para começar, levanta perguntas morais enormes e depois foge delas: até onde pode ir uma armadilha antes de deixar de ser justiça? Quando um dos homens apanhados grita a Hansen “quem é que te deu autorização para fazer isto?”, o filme sabe que aquele indivíduo tem um ponto, mas fica-se por aí. Depois, a subtrama das infidelidades de Hansen nunca encaixa e parece saída de um outro filme. E as liberdades com os fatos verídicos, legítimas numa ficção assumida, podem baralhar quem não conhece a história verdadeira.
“O que acha que teria acontecido se eu não estivesse aqui?”, pergunta Hansen a quem apanha. Talvez nada, talvez tudo. Desta vez, a falta de resposta joga a favor do filme, porque é essa a pergunta que nos acompanha à saída da sala. Vinte anos depois, o pelourinho cabe no bolso e qualquer um pode montar o seu tribunal e correr atrás dos seus quinze minutos de fama, custe o que custar. Oppenheim obriga-nos a olhar para o ecrã e a perguntar quem está, afinal, a ser apanhado. Primetime merece o horário nobre. O programa de Hansen, esse, de nobre só tinha o horário.
Crítica | PRIMETIME: Robert Pattinson e o pelourinho do horário nobre
#Motivação
Opinião
After Work

Numa das interpretações mais interessantes da sua carreira, Robert Pattinson veste o fato de Chris Hansen, o caçador de predadores sexuais da televisão americana, e transforma-o numa criatura que mete medo. Na estreia de Lance Oppenheim na ficção, a câmara é arma e tribunal, ao mesmo tempo, e o espectador acaba sentado no banco dos cúmplices.
★★★★☆

Quantas vezes passaste pelo pelourinho de uma vila portuguesa sem te perguntares para que servia? Durante séculos, era ali que se expunham os condenados à vergonha pública. Nos Estados Unidos de meados dos anos 2000, o pelourinho mudou-se para a sala de estar e passou a chamar-se To Catch a Predator. Neste segmento do Dateline, da NBC, voluntários adultos faziam-se passar por menores em salas de chat e, quando um homem propunha um encontro sexual, atraíam-no para uma casa cheia de câmaras escondidas. Em vez do adolescente que esperava, aparecia Chris Hansen, de fato escuro e conversas impressas na mão, com uma pergunta que o trailer de Primetime transformou em meme: “You see how this looks, right?”.
“Antigamente havia um pelourinho em cada cidade civilizada”, diz o Hansen de Pattinson a dada altura. “Agora, há uma televisão em cada casa, e eu estou nela”. Primetime recua a 2006, quando a NBC decide colocar o programa em horário nobre para rivalizar com a série fenómeno Lost (Perdidos, em português). Hansen e a produtora Andie Bender (Merritt Wever) precisam agora de presas maiores, a que chamam “baleias”, e contratam um jovem ator com cara de miúdo (Skyler Gisondo) para servir de isco. O argumento de Ajon Singh parte de uma reportagem da Esquire sobre uma das emboscadas mais célebres do programa. O que lá aconteceu fica para quem for ao cinema.

Na sua estreia em ficção, o cineasta Lance Oppenheim, oriundo do documentário, preferiu um drama com toques de horror a um biopic convencional. A aposta valeu-lhe sete minutos de aplausos no Festival de Veneza, onde o filme esteve em competição. Este parece ser o ano de Robert Pattinson. Depois de O Drama e d’A Odisseia, e antes de Duna: Parte Três, em Dezembro, Primetime é o mais arriscado dos quatro filmes que o ator estreia em 2026 e talvez aquele que lhe dê a primeira nomeação aos Óscares. É um papel capaz de dividir a Academia, mas é difícil ficar-lhe indiferente.
A cena inicial resume bem a sua grande interpretação e aquilo a que estamos prestes a assistir: antes de entrar em direto, Hansen fecha-se no camarim a ensaiar as mensagens obscenas dos homens que vai apanhar, à procura do tom certo, como quem declama Shakespeare. É grotesco e é também o retrato do programa que apresenta: a perversão alheia transformada em guião para ensaiar. Durante a rodagem, Oppenheim disse a Pattinson que ele estava a fazer de Chris Hansen, mas também de Jerry Maguire e de Drácula, e o ator levou essa a ideia à letra. Diante das câmaras, tem a voz mansa de um pivot. Fora delas, sua de nervos em frente ao espelho, goza com a produtora e inveja os colegas que cobrem a Guerra do Iraque. Antes de cada emboscada há nele um entusiasmo que mete medo e Pattinson nunca nos deixa esquecer que há qualquer coisa de predatório neste caçador de predadores.

Skyler Gisondo merece destaque como Dan Plum, um aspirante a ator que aceita fazer de isco para aparecer na televisão e juntar os créditos de que precisa para o cartão do sindicato dos atores. Aos poucos, deixa-se seduzir pelo jogo, e Gisondo faz a inocência da personagem desfazer-se lentamente à nossa frente. Merritt Wever chamou-lhe “o tronco da árvore” que segura o filme, e tem razão. Ela própria está excelente como Andie Bender, uma produtora de olhar afiado que nega a humanidade dos outros e a sua em nome das audiências. Se Gisondo é o anjo no ombro de Hansen, Wever é o diabo. Não seria de espantar se, hipoteticamente, forem considerados para a corrida aos Óscares de ator e atriz secundários.

Oppenheim filma tudo como uma cassete VHS esquecida numa gaveta, suja e pixelizada. Nos ecrãs, ao fundo, passa o julgamento de Saddam e a equipa de Hansen fala por rádio como uma unidade de forças especiais. A emboscada televisiva e a guerra falam aqui a mesma língua. Hansen jura que está a limpar o mundo de um mal ancestral, mas quanto mais popular é o programa, maior parece a epidemia.
No fundo, Primetime é uma reflexão sobre até onde se está disposto a ir pela fama. Hansen quer o horário nobre, Andie quer audiências e Dan quer o cartão do sindicato. Na NBC, ninguém quer saber dos métodos enquanto o programa render, e Jeff Zucker — o patrão da estação que se interpreta a si mesmo — di-lo sem rodeios: “Não percebo o vosso programa. Não gosto dele. Não acredito nele. Mas a América adora-o”. Não é a primeira vez que o cinema olha assim para a televisão. Veja-se Escândalo na TV (1976), onde uma estação descobre que um pivot à beira do colapso faz subir as audiências e transforma-o num profeta; ou Nightcrawler - Repórter na Noite (2014), onde o repórter de imagem interpretado por Jake Gyllenhaal começa por filmar crimes de madrugada e acaba a provocá-los para ter imagens melhores. Primetime cruza os dois: uma estação que só olha para os números e um apresentador disposto a tudo para os alimentar. Hansen precisa daquilo que diz combater e não hesita em instigar situações pouco éticas diante das câmaras. E nós, enquanto audiência, tornamo-nos cúmplices.

Não é, no entanto, um filme sem pontos a julgar. Para começar, levanta perguntas morais enormes e depois foge delas: até onde pode ir uma armadilha antes de deixar de ser justiça? Quando um dos homens apanhados grita a Hansen “quem é que te deu autorização para fazer isto?”, o filme sabe que aquele indivíduo tem um ponto, mas fica-se por aí. Depois, a subtrama das infidelidades de Hansen nunca encaixa e parece saída de um outro filme. E as liberdades com os fatos verídicos, legítimas numa ficção assumida, podem baralhar quem não conhece a história verdadeira.
“O que acha que teria acontecido se eu não estivesse aqui?”, pergunta Hansen a quem apanha. Talvez nada, talvez tudo. Desta vez, a falta de resposta joga a favor do filme, porque é essa a pergunta que nos acompanha à saída da sala. Vinte anos depois, o pelourinho cabe no bolso e qualquer um pode montar o seu tribunal e correr atrás dos seus quinze minutos de fama, custe o que custar. Oppenheim obriga-nos a olhar para o ecrã e a perguntar quem está, afinal, a ser apanhado. Primetime merece o horário nobre. O programa de Hansen, esse, de nobre só tinha o horário.
Crítica | PRIMETIME: Robert Pattinson e o pelourinho do horário nobre
#Motivação
Opinião
After Work

Numa das interpretações mais interessantes da sua carreira, Robert Pattinson veste o fato de Chris Hansen, o caçador de predadores sexuais da televisão americana, e transforma-o numa criatura que mete medo. Na estreia de Lance Oppenheim na ficção, a câmara é arma e tribunal, ao mesmo tempo, e o espectador acaba sentado no banco dos cúmplices.
★★★★☆

Quantas vezes passaste pelo pelourinho de uma vila portuguesa sem te perguntares para que servia? Durante séculos, era ali que se expunham os condenados à vergonha pública. Nos Estados Unidos de meados dos anos 2000, o pelourinho mudou-se para a sala de estar e passou a chamar-se To Catch a Predator. Neste segmento do Dateline, da NBC, voluntários adultos faziam-se passar por menores em salas de chat e, quando um homem propunha um encontro sexual, atraíam-no para uma casa cheia de câmaras escondidas. Em vez do adolescente que esperava, aparecia Chris Hansen, de fato escuro e conversas impressas na mão, com uma pergunta que o trailer de Primetime transformou em meme: “You see how this looks, right?”.
“Antigamente havia um pelourinho em cada cidade civilizada”, diz o Hansen de Pattinson a dada altura. “Agora, há uma televisão em cada casa, e eu estou nela”. Primetime recua a 2006, quando a NBC decide colocar o programa em horário nobre para rivalizar com a série fenómeno Lost (Perdidos, em português). Hansen e a produtora Andie Bender (Merritt Wever) precisam agora de presas maiores, a que chamam “baleias”, e contratam um jovem ator com cara de miúdo (Skyler Gisondo) para servir de isco. O argumento de Ajon Singh parte de uma reportagem da Esquire sobre uma das emboscadas mais célebres do programa. O que lá aconteceu fica para quem for ao cinema.

Na sua estreia em ficção, o cineasta Lance Oppenheim, oriundo do documentário, preferiu um drama com toques de horror a um biopic convencional. A aposta valeu-lhe sete minutos de aplausos no Festival de Veneza, onde o filme esteve em competição. Este parece ser o ano de Robert Pattinson. Depois de O Drama e d’A Odisseia, e antes de Duna: Parte Três, em Dezembro, Primetime é o mais arriscado dos quatro filmes que o ator estreia em 2026 e talvez aquele que lhe dê a primeira nomeação aos Óscares. É um papel capaz de dividir a Academia, mas é difícil ficar-lhe indiferente.
A cena inicial resume bem a sua grande interpretação e aquilo a que estamos prestes a assistir: antes de entrar em direto, Hansen fecha-se no camarim a ensaiar as mensagens obscenas dos homens que vai apanhar, à procura do tom certo, como quem declama Shakespeare. É grotesco e é também o retrato do programa que apresenta: a perversão alheia transformada em guião para ensaiar. Durante a rodagem, Oppenheim disse a Pattinson que ele estava a fazer de Chris Hansen, mas também de Jerry Maguire e de Drácula, e o ator levou essa a ideia à letra. Diante das câmaras, tem a voz mansa de um pivot. Fora delas, sua de nervos em frente ao espelho, goza com a produtora e inveja os colegas que cobrem a Guerra do Iraque. Antes de cada emboscada há nele um entusiasmo que mete medo e Pattinson nunca nos deixa esquecer que há qualquer coisa de predatório neste caçador de predadores.

Skyler Gisondo merece destaque como Dan Plum, um aspirante a ator que aceita fazer de isco para aparecer na televisão e juntar os créditos de que precisa para o cartão do sindicato dos atores. Aos poucos, deixa-se seduzir pelo jogo, e Gisondo faz a inocência da personagem desfazer-se lentamente à nossa frente. Merritt Wever chamou-lhe “o tronco da árvore” que segura o filme, e tem razão. Ela própria está excelente como Andie Bender, uma produtora de olhar afiado que nega a humanidade dos outros e a sua em nome das audiências. Se Gisondo é o anjo no ombro de Hansen, Wever é o diabo. Não seria de espantar se, hipoteticamente, forem considerados para a corrida aos Óscares de ator e atriz secundários.

Oppenheim filma tudo como uma cassete VHS esquecida numa gaveta, suja e pixelizada. Nos ecrãs, ao fundo, passa o julgamento de Saddam e a equipa de Hansen fala por rádio como uma unidade de forças especiais. A emboscada televisiva e a guerra falam aqui a mesma língua. Hansen jura que está a limpar o mundo de um mal ancestral, mas quanto mais popular é o programa, maior parece a epidemia.
No fundo, Primetime é uma reflexão sobre até onde se está disposto a ir pela fama. Hansen quer o horário nobre, Andie quer audiências e Dan quer o cartão do sindicato. Na NBC, ninguém quer saber dos métodos enquanto o programa render, e Jeff Zucker — o patrão da estação que se interpreta a si mesmo — di-lo sem rodeios: “Não percebo o vosso programa. Não gosto dele. Não acredito nele. Mas a América adora-o”. Não é a primeira vez que o cinema olha assim para a televisão. Veja-se Escândalo na TV (1976), onde uma estação descobre que um pivot à beira do colapso faz subir as audiências e transforma-o num profeta; ou Nightcrawler - Repórter na Noite (2014), onde o repórter de imagem interpretado por Jake Gyllenhaal começa por filmar crimes de madrugada e acaba a provocá-los para ter imagens melhores. Primetime cruza os dois: uma estação que só olha para os números e um apresentador disposto a tudo para os alimentar. Hansen precisa daquilo que diz combater e não hesita em instigar situações pouco éticas diante das câmaras. E nós, enquanto audiência, tornamo-nos cúmplices.

Não é, no entanto, um filme sem pontos a julgar. Para começar, levanta perguntas morais enormes e depois foge delas: até onde pode ir uma armadilha antes de deixar de ser justiça? Quando um dos homens apanhados grita a Hansen “quem é que te deu autorização para fazer isto?”, o filme sabe que aquele indivíduo tem um ponto, mas fica-se por aí. Depois, a subtrama das infidelidades de Hansen nunca encaixa e parece saída de um outro filme. E as liberdades com os fatos verídicos, legítimas numa ficção assumida, podem baralhar quem não conhece a história verdadeira.
“O que acha que teria acontecido se eu não estivesse aqui?”, pergunta Hansen a quem apanha. Talvez nada, talvez tudo. Desta vez, a falta de resposta joga a favor do filme, porque é essa a pergunta que nos acompanha à saída da sala. Vinte anos depois, o pelourinho cabe no bolso e qualquer um pode montar o seu tribunal e correr atrás dos seus quinze minutos de fama, custe o que custar. Oppenheim obriga-nos a olhar para o ecrã e a perguntar quem está, afinal, a ser apanhado. Primetime merece o horário nobre. O programa de Hansen, esse, de nobre só tinha o horário.
Crítica | PRIMETIME: Robert Pattinson e o pelourinho do horário nobre
#Motivação
Opinião
After Work

Numa das interpretações mais interessantes da sua carreira, Robert Pattinson veste o fato de Chris Hansen, o caçador de predadores sexuais da televisão americana, e transforma-o numa criatura que mete medo. Na estreia de Lance Oppenheim na ficção, a câmara é arma e tribunal, ao mesmo tempo, e o espectador acaba sentado no banco dos cúmplices.
★★★★☆

Quantas vezes passaste pelo pelourinho de uma vila portuguesa sem te perguntares para que servia? Durante séculos, era ali que se expunham os condenados à vergonha pública. Nos Estados Unidos de meados dos anos 2000, o pelourinho mudou-se para a sala de estar e passou a chamar-se To Catch a Predator. Neste segmento do Dateline, da NBC, voluntários adultos faziam-se passar por menores em salas de chat e, quando um homem propunha um encontro sexual, atraíam-no para uma casa cheia de câmaras escondidas. Em vez do adolescente que esperava, aparecia Chris Hansen, de fato escuro e conversas impressas na mão, com uma pergunta que o trailer de Primetime transformou em meme: “You see how this looks, right?”.
“Antigamente havia um pelourinho em cada cidade civilizada”, diz o Hansen de Pattinson a dada altura. “Agora, há uma televisão em cada casa, e eu estou nela”. Primetime recua a 2006, quando a NBC decide colocar o programa em horário nobre para rivalizar com a série fenómeno Lost (Perdidos, em português). Hansen e a produtora Andie Bender (Merritt Wever) precisam agora de presas maiores, a que chamam “baleias”, e contratam um jovem ator com cara de miúdo (Skyler Gisondo) para servir de isco. O argumento de Ajon Singh parte de uma reportagem da Esquire sobre uma das emboscadas mais célebres do programa. O que lá aconteceu fica para quem for ao cinema.

Na sua estreia em ficção, o cineasta Lance Oppenheim, oriundo do documentário, preferiu um drama com toques de horror a um biopic convencional. A aposta valeu-lhe sete minutos de aplausos no Festival de Veneza, onde o filme esteve em competição. Este parece ser o ano de Robert Pattinson. Depois de O Drama e d’A Odisseia, e antes de Duna: Parte Três, em Dezembro, Primetime é o mais arriscado dos quatro filmes que o ator estreia em 2026 e talvez aquele que lhe dê a primeira nomeação aos Óscares. É um papel capaz de dividir a Academia, mas é difícil ficar-lhe indiferente.
A cena inicial resume bem a sua grande interpretação e aquilo a que estamos prestes a assistir: antes de entrar em direto, Hansen fecha-se no camarim a ensaiar as mensagens obscenas dos homens que vai apanhar, à procura do tom certo, como quem declama Shakespeare. É grotesco e é também o retrato do programa que apresenta: a perversão alheia transformada em guião para ensaiar. Durante a rodagem, Oppenheim disse a Pattinson que ele estava a fazer de Chris Hansen, mas também de Jerry Maguire e de Drácula, e o ator levou essa a ideia à letra. Diante das câmaras, tem a voz mansa de um pivot. Fora delas, sua de nervos em frente ao espelho, goza com a produtora e inveja os colegas que cobrem a Guerra do Iraque. Antes de cada emboscada há nele um entusiasmo que mete medo e Pattinson nunca nos deixa esquecer que há qualquer coisa de predatório neste caçador de predadores.

Skyler Gisondo merece destaque como Dan Plum, um aspirante a ator que aceita fazer de isco para aparecer na televisão e juntar os créditos de que precisa para o cartão do sindicato dos atores. Aos poucos, deixa-se seduzir pelo jogo, e Gisondo faz a inocência da personagem desfazer-se lentamente à nossa frente. Merritt Wever chamou-lhe “o tronco da árvore” que segura o filme, e tem razão. Ela própria está excelente como Andie Bender, uma produtora de olhar afiado que nega a humanidade dos outros e a sua em nome das audiências. Se Gisondo é o anjo no ombro de Hansen, Wever é o diabo. Não seria de espantar se, hipoteticamente, forem considerados para a corrida aos Óscares de ator e atriz secundários.

Oppenheim filma tudo como uma cassete VHS esquecida numa gaveta, suja e pixelizada. Nos ecrãs, ao fundo, passa o julgamento de Saddam e a equipa de Hansen fala por rádio como uma unidade de forças especiais. A emboscada televisiva e a guerra falam aqui a mesma língua. Hansen jura que está a limpar o mundo de um mal ancestral, mas quanto mais popular é o programa, maior parece a epidemia.
No fundo, Primetime é uma reflexão sobre até onde se está disposto a ir pela fama. Hansen quer o horário nobre, Andie quer audiências e Dan quer o cartão do sindicato. Na NBC, ninguém quer saber dos métodos enquanto o programa render, e Jeff Zucker — o patrão da estação que se interpreta a si mesmo — di-lo sem rodeios: “Não percebo o vosso programa. Não gosto dele. Não acredito nele. Mas a América adora-o”. Não é a primeira vez que o cinema olha assim para a televisão. Veja-se Escândalo na TV (1976), onde uma estação descobre que um pivot à beira do colapso faz subir as audiências e transforma-o num profeta; ou Nightcrawler - Repórter na Noite (2014), onde o repórter de imagem interpretado por Jake Gyllenhaal começa por filmar crimes de madrugada e acaba a provocá-los para ter imagens melhores. Primetime cruza os dois: uma estação que só olha para os números e um apresentador disposto a tudo para os alimentar. Hansen precisa daquilo que diz combater e não hesita em instigar situações pouco éticas diante das câmaras. E nós, enquanto audiência, tornamo-nos cúmplices.

Não é, no entanto, um filme sem pontos a julgar. Para começar, levanta perguntas morais enormes e depois foge delas: até onde pode ir uma armadilha antes de deixar de ser justiça? Quando um dos homens apanhados grita a Hansen “quem é que te deu autorização para fazer isto?”, o filme sabe que aquele indivíduo tem um ponto, mas fica-se por aí. Depois, a subtrama das infidelidades de Hansen nunca encaixa e parece saída de um outro filme. E as liberdades com os fatos verídicos, legítimas numa ficção assumida, podem baralhar quem não conhece a história verdadeira.
“O que acha que teria acontecido se eu não estivesse aqui?”, pergunta Hansen a quem apanha. Talvez nada, talvez tudo. Desta vez, a falta de resposta joga a favor do filme, porque é essa a pergunta que nos acompanha à saída da sala. Vinte anos depois, o pelourinho cabe no bolso e qualquer um pode montar o seu tribunal e correr atrás dos seus quinze minutos de fama, custe o que custar. Oppenheim obriga-nos a olhar para o ecrã e a perguntar quem está, afinal, a ser apanhado. Primetime merece o horário nobre. O programa de Hansen, esse, de nobre só tinha o horário.


